Lá vai o cabrão no camião – dizem muitos energumenes que infelizmente ocupam lugar neste mundo. Ocupam porque ao belo opõe-se o feio, ao mal o bem, ao triste o feliz, ao culto o inculto, ao sensato o insensato. Todos têm lugar nesta bola redonda, mas a compreensão do lugar do outro poucos atingem. Além disso cabrões há muitos e nem precisam de sair de casa por muitas horas para o serem.
Lá vai o brutamontes, será que um ser daqueles tem cerebro como a gente comum…terá sentimentos como os demais? Não deve…afinal é um camionista, e, como tal, foi desprovido de coração e emoção; faz vida num camião nem precisa de amor, carinho, compreensão – alvitram outros convencidos que falam uma verdadade irrefutável.
Lá vai o porco, sempre com aquela suada camisola de alças, bucho protuberante e cara de mau sem remédio. Tanto tempo que andam por lá deve ser só mulheres da má vida?! Sem tomar banho, a cozinhar ao lado do camião no meio do lixo. Também são camionistas, que se espera, tão-só feios palavrões, daquela boca não sai conversa direita, andam num camião nem precisam de saber falar qualquer coisita – defendem alguns obstinados mais pobres de vida.
E o homem por trás do camião? Esse é um Homem que sente, que pensa infinitamente sobre os seus que ficaram longe, que deixou e não sabe se volta a ver, a sorrir com eles, a sentir o seu amor, amizade, carinho; enfim, as sensações que fazem correr o sangue desde as veias mais finas às grandes artérias e repetidamente bater irrequietante o coração. Pulam as saudades constantes no pensamento menos pensado, pois não se pensa por pensar, pensa-se no que não se queria pensar: nos seus, no que ficou por fazer.
Quando se fecha a cortina, antes dos sonhos se apoderarem do corpo cansado mais uma vez a tormenta dos pensamentos, duros e decididos a ficar e moer. A saudade atinge o seu zénite. Não ter ninguém a quem dar uma palavra, a quem lançar um simples olhar e dizer boa noite. Resta imaginar, talvez abrir um pouco a cortina, olhar de encontro ao céu incendiado de estrelas e pardo do luar e saber que algures naquela direcção está alguém que nos faz existir e não fomos esquecidos pelos muitos quilómetros. Sentir que se faz parte do mundo e que por mais um dia não fomos esquecidos.
Afinal os camionistas são prisioneiros de sentimentos, o feio, porco e mau é uma pessoa como todas as outras. É feito da mesma massa e de todos os componentes humanos das restantes pessoas comuns. Compleição de carne e osso, impregnada de um coração amanteigado de emoções, razões, tentações, dor.
É um homem que sonha como todos os outros… e até sonha mais…
Digital não é digitalização...
Há um mês