Um alien em Inglaterra, foi como eu me senti da primeira e única vez que visitei os reinos de sua majestade, ali bem mergulhado entre as brumas pachorrentas do Atlântico e as borrascas glaciais que sopram em fúria provenientes do norte.
Naquela terra é tudo ao contrário na estrada,no começo, pelo menos nos primeiros quilómetros, parece que andamos um pouco à nora, mas depois desse primeiro passo à esquerda, tudo é igual. As regras, o alcatrão veste-se de negro, as rotundas, os sinais de trânsito, são uma linguagem comum aos condutores de qualquer lado.
Torna-se castiço poder parar nas bermas das Auto-estradas, onde hilariantemente encontramos pequenas casas de banho, semelhantes às que agora são comuns nos estaleiros de obras. Propavelmente, será para evitar fazer o chichizinho no manto verde de relva e densos arbustos.
Foi assim que encontrei a Inglaterra, uma ilha escondida um pouco a Norte da França.
Depois de os meus parcos cabelos terem esvoaçado a sentir o sopro frígido que expira das águas frequentemente agitadas do estreito, deparo-me com uma saída do barco pela minha mão mais fraca, a esquerda. Saí do barco, começei a circular entrando logo numa dura sucessão de curvas e contracurvas, bem acotoveladas à esquerda. Surgiu a primeira rotunda e a última roda da galera trilhou um pouco da pedra de cor esfumeada que compunha o lancil, extraordinariamente alto. A partir daí, foi sempre com o ponteiro bem acostadinho aos 90 Km\h. Eu antes pensava que os espanhois andavam sempre com a o velocímetro atrasado, mas fiquei pasmado ao ver os Ingleses e os Irlandeses, com aqueles reboques bem subidos bem como porta-carros com três patamares de veículos ao invés dos típicos dois da restante Europa, a passarem por mim que nem um ápice, baloiçando devido ao ar que se comprimia entre nós, como que fossem simples ligeiros.
A parte melhor ainda estava para vir, quando, noite parda e com o céu fechado por um manto cinzentão de nuvens, procurei um parque para descansar o corpo, que já perlava de tanto suor expelir.Queria dar ao serrote para o estomâgo que se ia queixando da sua fraqueza.
Não conhecia a Inglaterra e esperava que àquela hora já teria dificuldade em instalar-me num lugar adequado para aparcar, como acontece na França. Aqui, depois das dezoito horas, no Verão, e das dezassete no Inverno, os camiões polacos empilham-se por todo o lado, ocupando cada pedaço livre. Mas não, pelas vinte horas e trinta minutos ainda havia bastante espaço. Parei em sgurança e veio ter comigo um tipico inglês, de ossos largos e cara de arruaçeiro, para pedir o dinheiro do parque. Fiquei a saber que fui enganado no barco pois pedi para me trocarem cem euros e pelos vistos recebi pouco mais de o equivalente a setenta euros em libras. Paguei e esqueci. Estava a preparar-me para ir jantar veio outra vez o rapazote rondar-me, desta vez segurando pelo gargálo largo um avantajado garrafão de plástico.
- Queres vender diesel? avançou ele objectivamente.
Adiantei-lhe que não, fiz má cara, fechei a porta e fui jantar. Quando voltei lá estava ele a tirar combustível de um camião polaco. Embora a minha firma, particularmente os motoristas da filial da R. Checa e os bulgaros, utilizem muito esta estratégia, a minha formação moral não me deixaria nunca fazer isso.
Daí que seja vulgar passarem por eles, motoristas de elste, a 80 Km\h, para que os camiões consumam menos e dessa forma não darem pela marosca na empresa.
Ao outro dia deixei a carga no destino, Tamworth, e volvi caminho arrepiando por entre um dia soalheiro e com o céu a exibir-se azul celeste até bem próximo de Dover.
Já não dava tempo para passar o barco e conseguir fazer o descanço mínimo, logo segui as indicações de um prque de camiões, como ainda não tinha visto em lado algum, vedado como com segurança assinalável.
Aqui deu-se o segundo insólito. Fui ao restaurante e reparei que a única tradução dos pratos em exposição e dos atlas de Inglaterra eram de Ingês para Françês e Polaco e vice-versa. Mas também não é por isso que os portugueses não deixam de solucionar os problemas de língua que possam obstaculizar o percurso. Aprendem um pouco de todas as línguas, não precisam que sejam os outros a tentar perceber-nos.
Bem, dizia eu que aconteceu entao outro inédito acontecimento.
Sentei-me no bar, a ver com que ia saciar o bucho e no meio da espera pedi uma cerveja. Então, sem que o fizesse esperar, o barman voltasse para mim e diz assim em Inglês de pronúncia pura: You are portuguese!. Eu fiquei uns momentos a pensar como ele adivinhou, pois certamente se fosse por artes do além o homem não estaria ali a servir cerveja e vinho a camionistas. Perguntei-lhe o porquê da observação e fiquei espantado pela resposta.Não vestia nenhuma indumentária típica do nosso canto.
- Vê-se pela tua forma de estar e pela aparência - Ripostou.
Realmente depois de repensar o facto durante umas eternas horas conclui que de facto temos uma postura coerentemente diferente.
A forma como olhamos, como nos expressamos e até como nos sentamos a beber uma cerveja é diferente. Por exemplo, nos parques não se vêem espanhois ou franceses a cozinhar. É típico dos portuguses. Por exemplo os de leste, em parte, fazem-no às escondidas.
Apesar de me sentir um alien en terras alheias rapidamente nos adaptamos e aprendemos a compreender as diferênças e qual a melhor forma de lidar com elas. Somos assim e por isso andamos espalhados por todo o mundo.
Digital não é digitalização...
Há 5 semanas
