terça-feira, 20 de outubro de 2009

Não me esqueçi...por cá continuo

Passou um ano e poucos dias que deixei para trás uma vida vivida pelos muitos quilómetros das estradas da Europa. Visitei alguns ilústres países mas infelismente não tive oportunidade de passar as rodas do Virgolino e os pés pela terra de outros tantos: Suiça, Suécia, Polónia, Austria... entre muitos outros.
Foi assim que percorri e conheci sitios que nunca teria réstia de hipótese de observar in loco senão pelo pára-brisas do meu camião, a que dei o nome de Virgolino. Aliás, passaram-me pelas mãos dois mas pela relação que tinha com eles adoptei o mesmo nome para ambos: Virgolino.
Escrevi muito e relatei acontecimentos, alguns não publicados, mas na minha cabeça fervilha uma ideia antiga de os reunir a todos e compilar numa espécie de livro de bordo. É um caso a pensar seriamente...
Muita gente me tem aqui visitado e para aqueles que não são camionistas espero que mudem a sua opinião em relação à maior parte da malta da roda, porque ainda há por lá quem só o seja de nome. Mas onde não há, conhecem alguma profissão que não tenha maus profissionais?
Os que o são – camionistas - certamente compreenderam as minhas palavras e os sentimentos transmitidos nos vários textos que escrevi.
Prometo que não vou deixar de escrever, porque há muitas histórias que ainda não contei, mas desafio outros a relatarem a suas vivências à semelhança de alguns blogs que frequento e que podem conhecer se olharem aqui ao lado.
Enfim, até para fazer amigos este blog já serviu, por isso vamos a escrever.
Deixo-vos o repto de me visitarem quando viajarem rumo ao Sul, digam qualquer coisa...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

De volta

Sejas bem aparecido! – Dirão com certeza depois destes alongados dias de ausência por estas bandas.

Têm completa razão mas a minha vida nos últimos tempos tem sido castigada por um turbilhão de afazeres.

Em primeira mão quero que saibam que fiquei colocado pelos reinos dos Al garbes, em plena capital da região, de novo afeiçoado pelas densas brumas e frescas borrascas libertadas pelo casamento do mar Mediterrâneo com o atrevido Atlântico.

Foram tempos de grandes agitações. Mudei de escola, deixando por lá alguma saudade. Voltei ao Básico, às idades da confusão, da agitação, das hormonas exaltadas. Talvez não seja outra vez o grande transmissor de conhecimentos que fui o ano anterior nem o amigo próximo para os alunos, mas decerto, serei como sempre fui, uma tentativa de exemplo moral e cívico, um homem que promove bons valores e ideias.

Tenho oito turmas e sou Director de Turma, pressupondo, por isso, um mergulho em grandes profundidades oceânicas de papéis, medidas correctivas, provas de recuperação, relatórios…., aliás avaliam-me mais tendo em conta essas profícuas realizações que por ser um grande professor, um transmissor de conhecimentos e atitudes cívicas e morais.

Seja como for uma coisa nunca me faltou: coragem.

Agora virando o leme para outro assunto, sabem que estou bronzeado, a pele apresenta uma indefinição entre um castanho desmaiado e simultaneamente ofuscante de brilho. Passei as férias no Algarve mas os dias mais agitados passaram-se em pela Serra da Estrela na aldeia de Corgas, a minha santa terra. Já que o ano passado não tive férias foi o aproveitar máximo do sol, da piscina, das minis, da companhia, dos amigos da família. Agora todos deram para implicar com a minha barriga, ou porque está redonda, ou porque pareço um abade – que me perdoem mas costumam ser rechonchudos – enfim já serve de pretexto para todos os gozos. Até já me envergonharam pois nem nos camiões era tão forte. È a vida de Professor que não me deixa tempo para umas corridas, uns passeios de bicicleta ou uma futebolada. Não gosto de ginásios.

Por falar em camiões, ando com uma sapeira de pegar num bicho que nem imaginam. Ser o rei da estrada, arrancar e sentir o som do engrenar de tantas velocidades para cima e para baixo, agradecer o bater de luzes nas ultrapassagens…

Já agora para essa malta da roda que ando por essa Europa fora, vejam lá se dizem qualquer coisa quando passarem aqui pelo sul.

Abraço para todos

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A saga das coimas convertidas em dias de férias

Finalmente compreendi a cruzada inflexível das forças de segurança portuguesas pela busca incessante da coima fácil. Digo fácil, porque algumas são necessárias e devem ser justamente aplicadas, ao contrário daquelas que são insensatas e fruto de mau âmago dos operantes e principalmente de quem têm o cú bem assente e acomodado na fofa cadeirona almofadada da secretária.
Isto tem tudo a ver com objectivos!
Tudo se passa da seguinte maneira: quanto mais coimas forem aplicadas pelos guitas mais dias de férias acrescentam e gozam. Eles dizem que os elementos destas forças são premiados pelo extremo zelo no cumprimento do seu dever e eu digo que são meritados pelo excesso de zelo.
Não queria atear mais o fogo mas a história real que tenho para vos contar é tanto hilariante como de descomedida intenção e acção de dedicação.
Um senhor aqui perto da minha aldeia tinha o sonho de criar um museu, onde ao longo de anos de intensa pesquisa e busca incansável reuniu uma panóplia de artefactos representativos dos nossos modos de vida – especialmente dos afazeres da lavoura, da resina, das artes e ofícios características da serra –, entre os quais se encontravam meia dúzia de mosquetes utilizados pelos nossos antepassados durante a caça. Eis aqui o objecto desta crónica: os mosquetes.
Trata-se de armas de fogo bastante remotas, constituidas por um fuzil capaz de projectar pequenas bolas de chumbo, através da explosão da pólvora doseadamente inserida pelo cano abaixo.
Para espanto de toda a gente, um dia qualquer, não sei se fazendo sol se chovendo, batem na porta os militares da guarda para retirarem essas peças do bem aperaltado museu. Não sabendo por obra de quem eles tomaram conhecimento, ficou na retina a sua acção, zelosa, donde talvez resultaria motivo de superior enaltecimento ao seu louvável trabalho, porque desarmaram numa missão excessivamente arriscada um pouco da riqueza daquele local de cultura, relembradando vivências e saberes doutras épocas.
São armas remotas que não causariam mal qualquer a uma pessoa, pois nem tão-só estavam em condiçõs disso. Encontravam-se com ar velho e ferrujento e só postavam ali como artefacto antigo para o visitante gozar com a vista. Quiçá noutros tempos teriam sido uteís em conquistas ou até maléficos ententes. As armas que ferem e matam desalmadamente a sangue frio, essas estão por vezes em mãos criminosas de má intenção. Estão escondidas, operacionais e podem fazer mal.
É assim que ajem por aqui.
Perdem mérito, respeito mas ganham férias.

domingo, 2 de agosto de 2009

Eles andem aí

Anda tudo com os azeites cá pela minha santa e frondosa aldeia. A GNR - aqueles senhores e senhoras mal-humorados, resmungões e de poucas falas – decidiram deixar a cidade e as estradas mais movimentadas e investir no campo, onde a pacatez das sua gentes em aliança a alguma ignorância conduzem à coima fácil.
Fiquei estupefacto com os sentimentos anti GNR, havendo já quem fale em perseguição e mau íntimo das operações encetadas. Tudo cozinhado conduziu a esta ideia um pouco incaracterística neste povo que conheço faz trinta e um anos: “eles não nos protegem, nem é a pela nossa segurança que trabalham, querem é dinheiro fácil de quem é honesto e trabalha".
Até ao ano passado eu não partilhava desta ideia, mas pelo que vi enquanto viajei pelas estradas de Portugal e da Velha Europa fui obrigado a pensar dessa maneira.
Deslocando-me agora da minha aldeia, estendo-me ao palco dos milhões de quilómetros do asfalto europeu: uma certa vez procurava um cliente em Espanha perto de Barcelona e quando vi um carro patrulha dos Mossos de Esquadra, assinalei a minha intenção de imobilizar o Virgolino em segurança para me dirigir a eles; cumprimentei-os e com a morada escrita num pedaço de papel onde havia rabiscado já um esboço do trajecto, perguntei-lhes com elevada educação se podiam indicar-me onde ficava. Pois bem, viraram-me má cara e ainda recalcaram que o procurasse eu, pois não tinham nada a ver e, como se não basta-se, pediram-me os discos e todos os documentos e ainda passaram revista ao tractor e semi-reboque.
Estava tudo conforme os cânones da lei, atiraram-me com os discos para a mão, grazinaram e deixaram-me ali plantado como um penhasco. Ainda fiquei estupefacto durante uns segundos e posto isto fui à minha vida. Outras situações muito semelhantes acabei por vivenciar e só na Alemanha, em Sinzig, a uns quilómetros de Bona, tenho boas memórias da polícia.
Voltando à minha aldeia não se fala por agora de outro assunto. Escondem-se atrás das árvores da berma da estrada para fiscalizar quem saí dos campos agrícolas, mandam parar todos os tractocarros, às cinco da manhã já estão à cola de quem madruga para o trabalho, fazem esperas junto dos cafés, ao mesmo tempo que se roubam igrejas, bens e propriedades, e não se vêm acções conclusivas.
É óbvio que não ganham dinheiro com isso, e, desta forma, o povo conclui que mesmo quando se age em conformidade com a lei, não o fazem porque se está a cumprir a regra, mas sobretudo porque dá dinheiro, esse é o que os move e é o fruto desse trabalho que apresentam aos seus superiores. Ou seja, não aplicam uma coima a alguém porque trás um passageiro no tractocarro e pode tornar-se perigoso para essa pessoa, mas sim porque esse facto é passível de encher os cofres, não pensando sequer na segurança ou não do passageiro.
Nesses meios tudo gira assim e daí que estas gentes começam a sentir os exageros e actos de má fé, questionando-se o respeito que até à pouco tempo se tinha pelo trabalho desses senhores. Talvez se houvesse preocupação com o que realmente interessa a sinistralidade rodoviária poderia diminuir e as pessoas se sentissem mais seguras.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Elas aí estão

Não via a hora, mas elas foram-se aproximando entre o meu cansaço invencível e o raiar do sol e das elevadas temperaturas. São as merecidas férias depois de dois anos de trabalho.
Estou de férias e para não variar vou para a Serra da Estrela, ver a minha querida aldeia e suas – e minhas – gentes. Gentes do campo, do trabalho árduo da lavoura, gente simples e hospitaleira. Ainda se bebe vinho tradicional na minha aldeia, come-se a broa de milho cozida em fornos de tijolo burro, assam-se as sardinhas frescas e provam-se as batatas novas. O ar é puro e a verdura e o colorido das flores selvagens pinta um quadro idílico que alegra a vista, a água corre agora pouco solta e só em terrenos mais íngremes se lança em velocidades furiosas. Mesmo assim lá vai serpenteando no seu incansável ciclo pelas cabeceiras até se despenhar violentamente no seio do seu senhor: rio Alva. Ali se entrelaçam num casamento perfeito.
Penso que quem de vós não teve a fortuna de nascer numa aldeia, seja da beira, do Alentejo, de Trás-os-Montes, do litoral Centro e Norte ou do teclado de serras do Minho, não sentirá nalguns retalhos de momentos falta e saudades da terra que viu crescer e deu abrigo aos seus filhos.
Muitas vezes ainda sonho com as aventuras na ribeira de águas cristalinas onde aprendi a dar as primeiras braçadas e para onde fugia aos domingos na hora da missa – que Deus me perdoe – ou daquela ocasião que todos os rapazes abalaram do recreio da escola em direcção ao monte só para brincar às escondidas. Só não me quero lembrar das reguadas que levamos ao outro dia. Ainda rezávamos todos os dias na escola e a professora tornara-se uma referência de sabedoria amizade e respeito para o resto da vida. Era amiga todos os dias e dura quando assim era necessário. Não foi por isso que ficamos traumatizados ou que não aprendemos matemática, língua portuguesa ou meio físico, a minha disciplina preferida.
Conhecia todos os caminhos da minha terrinha da mesma forma que sabia as árvores onde os melros e o resto da passarada faziam o ninho. Na Primavera acordava com o chilrear dos pássaros que percorriam as árvores que ladeavam a minha casa. Hoje em dia vêem-se arrepiantemente poucos!
No final da escola, que terminava às quinze horas, íamos tratar das cabras e das ovelhas de cada um, dava tempo de sobra para brincar e para fazer os deveres com paciência.
Enfim, estou de férias e vou revisitar a minha aldeia onde os mais pequenos ainda brincam nas ruas e os mais velhos descansam nas sombras frescas das praças e jardins.

domingo, 19 de julho de 2009

Faz tempo...

Pois é, tenho andado atormentado com vários assuntos. Primeiro foram as avaliações finais dos cursos profissionais que só terminaram completamente à uma semana atrás, depois recebi uma convocatória para passar a minha bic vermelha sobre a tinta escorrida em palavras azuis dos exames nacionais do ensino secundário.
Ora, logo aqui surgiu-me uma tema tão pertinente nos tempos que correm que não consigo deixar de vos pôr a par. Uma das questões do exame continha já uma boa dose de campanha eleitoral, tanto assim que pedia a quem estava à prova para apresentar duas consequências positivas da construção do aeroporto na “margem sul” de Lisboa. Ou seja, nem há hipótese de confrontação ou debate de ideias, ou indicas duas consequências positivas ou a bic castradora de palavras teria que desenhar um esboço de um círculo impreciso de O valores de cotação na margem direita.
Nunca pensei que a campanha eleitoral de um partido descesse tão baixo e instrumentaliza-se o futuro de tanta boa gente. No mesmo grupo, inexplicavelmente, pede-se que analisem uma imagem supostamente representativa de campos agrícolas em forma de círculos que, pelos vistos, só um mago ou vidente consegue alcançar os itens pretendidos na resposta. È precisa uma imaginação sobremaneira fértil para chegar as conclusões pretendidas.
Mais uma vez a minha massa cinzenta não encaixa factos para tanta gente simples. Afinal porque não são os exames concebidos por professores que labutam diariamente no terreno, ao invés de o serem por gente afastada da realidade, do campo de batalha.
Diga-me quem tenha resposta porque razões existem professores - há muitos chamados titulares que sempre escolheram as as suas turmas e não fizam a mínima ideia do que é lidar com determinadas turmas e diz o ministério que servem para fazer valera sua experiência junto dos mais novos - que nunca leccionaram a turmas complicadas com meninos tão queridos e inocentes, não raras vezes maiores de idade e conscientes do que fazem. Afinal por que carga de água se concluiu que toda a gente tem que estudar. Donde surgiu a ideia de dar de mãos beijadas um diploma a alguém que em três meses concluí o nono ano de escolaridade ou o décimo segundo num ano. De que valem as estatísticas quando na prática grassa o facilitismo, a falta de carácter e frontalidade e a iliteracia.
Assim tenho passado o meu tempo, porque contrariamente ao que muita gente diz não tenho três meses de férias, tenho apenas vinte e dois dias e confesso que não consigo ver mais papéis e relatórios a minha frente.
Estou capaz de encher um ecoponto azul com tanta árvore destruída para tão infame fim. A tecnologia é tão avançada mas continuamos a derrubar a floresta indefesa para fazer papel, por vezes tão dispensável. Ainda por cima é tão duro que nem para limpar o rabo é adequado.